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Escafandristas, grupo formado originalmente por Alice Passos, Renato Frazão, Luísa Lacerda e Thiago Amud (este último, o responsável pelos arranjos e direção musical), que estreou em outubro de 2024 na Casa do Choro (Rio de Janeiro) chega ao Terças no Ipanema no dia 30 de setembro, para uma apresentação única. O nome do grupo dá a pista do tema principal da apresentação: o repertório de Chico Buarque.
"Há quem considere o popular e o erudito como retas paralelas: só se encontram no infinito. Quem acredita nisso nunca veio ao Brasil.
Por aqui, nossa música vive nessa encruzilhada a impossível: aqui a filosofia faz esquina com o assobio. Quem melhor entendeu o espírito do país fez isso cantando samba. "Só é possível filosofar em alemão” , disse um filósofo que nunca ouviu Chico Buarquecantando o "Tempo e o Artista".
Oswald de Andrade sonhou há cem anos atrás: "a massa ainda há de comer o biscoito fino que fabrico." Seu sonho não se realizou. Ainda. A poesia, no Brasil, nunca ganhou estádios, como aconteceu na Rússia. Ou melhor, conseguiu, mas através da música. A canção popular, essa sim, conseguiu realizar o sonho oswaldiano. E Chico Buarque mora no encontro das paralelas: erigiu uma obra nessa encruzilhada.
Francisco Buarque de Hollanda fez oitenta anos. Se o artista não fosse avesso a homenagens e celebrações, teria sido feriado nacional. As festas aconteceram sem a presença do artista: no bip bip vararam (varamos!) a madrugada tocando e cantando seis horas de sucessos ininterruptos do Chico - sem repetir nenhuma música. Não foi o bastante. Faltava alguma coisa.
Faltava isso: os Escafandristas, grupo recém-formado com o único objetivo de celebrar a vasta obra de Chico Buarque. A banda reúne quatro dos nomes mais interessantes da nova música brasileira: Thiago Amud, Renato Frazão, Luisa Lacerda e Alice Passos. Cada um encontrou a sua maneira de ser ao mesmo tempo autoral e popular, sofisticado e generoso com quem ouve, cômico e poético, cínico e apaixonado. Como Chico Buarque.
Afinal Chico não está sozinho nessa encruzilhada do transcendente e do imanente sob a forma da canção. Deixou uma legião de filhos e netos, compositores e letristas que acreditam que a melodia sinuosa é compatível com a palavra cantada e usam a canção pra contar histórias e fundar mundos. Amud, Frazão, Lacerda e Passos, para além de cantores e instrumentistas, são "cantautores"e, dos melhores que há. Produziram o que ouvi de melhor nos últimos anos no quesito letra e música trabalhando juntos, naquele casamento perfeito, como tem que ser.
Aqui, no entanto, o quarteto não cantará suas próprias composições mas se dedicará exclusivamente a celebrar a vasta obra do seu maestro soberano - no caso, Chico. Tão vasta que me surpreenderam, no repertório, com músicas que nunca ouvi - eu que achei que tivesse exaurido Chico Buarque, e conhecesse até o lado B. Ledo engano. Chico não tem dois lados, mas trinta e sete.
Os quatro provam que ainda há muitos mundos a se explorar dentro do universo buarquiano: fragmentos de carta, mentiras, poemas, retratos, vestígios de estranha civilização.
Não se afobe não, que nada é pra já: dia 30 de setembro, no Teatro Ipanema, eles estarão lá. É um time dos sonhos, e sonhos, você sabe, sonhos, sonhos são."
Gregório Duvivier